Depois de um tempo morando fora, com os olhos e ouvidos descansados da miséria, eu assumo aqui, declaradamente e sem mea culpa, que a TV é um dos fenômenos mais cosmopolitas que existe no Brasil. Quero dizer, se a gente tivesse que apontar de onde vem a nossa mais intensa ligação com o mundo, com o Ocidente e com Oriente, eu arriscaria que ela vem pela TV.
Esse vídeo apresenta todo o argumento que sustenta a minha sugestão. Vamos a uma análise:
1) o artista canta em árabe, uma língua que não temos familiaridade alguma;
2) ele é feio e não é palhaço, mas mesmo assim logrou algum sucesso nacional. Tipo, Khaled não é um fenômeno circense ou uma peça de humor, como Tiririca e Falcão, mas foi um dos grandes sucessos de 1999. Contemplar o diferente é um dos principais pontos do cosmopolitismo;
3) a equipe do Faustão, comprometida com a informação dos espectadores, contrata um tradutor árabe/português para levar ao público o máximo de conteúdo possível da letra de ‘El Arbi’, que quer dizer ‘O árabe’. Nunca vi nada parecido em nenhuma outra TV. A intenção é louvável: queremos entender o outro profundamente em sua própria língua, cultura (o que também explica o figurino típico, a animação e todo o elenco da Malhação dançando as arab junto com o ‘El Arbi’);
4) da Bahia, Ivete Sangalo fez mais, copiou o ritmo de ‘El Arbi’ em ‘Sorte Grande’ aka ‘Poeira’ fazendo com a sua versão maior sucesso que o original. Prova de que sabemos aproveitar o que é bom a nosso favor – descartando o que não nos é útil away (yes, é assim que se faz nos países do Primeiro Mundo);
5) as dançarinas do Faustão tentam, Regina Casé tenta, mas Khaled, preso às suas raízes, não se ilude: todos essa meninas são bonitos, mas não são árabes. De resto, só as coube dançar. Ainda que em árabe. Lição de tolerência e respeito pelo que nos é diferente, atitude definitiva e irrevogável de um cosmopolita.
Por tudo isso, eu pergunto: somos ou não somos uma nação cosmopolita?